
A Polícia Federal (PF) encontrou no material apreendido no celular do advogado Willer Tomaz, amigo próximo do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), um e-mail no qual ele admite a uma instituição financeira ser sócio da Rio Pag, operadora dos pagamentos de apostas de lotéricas e bets da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj). O serviço, sobre o qual hoje pesam suspeitas de irregularidades, era prestado através de um contrato controverso firmado na gestão de Cláudio Castro (PL), também aliado de Flávio, quando a autarquia era presidida por um advogado que atuava com Willer em tribunais superiores.
Até então, Willer Tomaz vinha negando peremptoriamente ter qualquer relação societária com a Rio Pag e alegando ser apenas o advogado da companhia – como fez em agosto, quando publicamos que o contrato da Rio Pag com a Loterj estava na mira da Justiça e do governador interino, Ricardo Couto.
Questionado novamente pela equipe da coluna, desta vez Willer admitiu manter “participação indireta” na empresa por meio de “uma cadeia de sociedades regularmente constituídas, registradas nas Juntas Comerciais e com administração própria”. Ainda assim, ele diz não integrar “a gestão de nenhuma das sociedades da cadeia”.
Sua irmã, Christine Tomaz, é diretora da Empresa Brasileira de Sistemas de Computação (Embrasis) – a única acionista da Capital Pretium S.A., que por sua vez é a única controladora da operadora da Loterj.
Segundo o UOL revelou em setembro, a Rio Pag faturou R$ 188 milhões com o contrato da Loterj desde a assinatura do contrato, em 2023. A autarquia, por sua vez, recebeu R$ 45,2 milhões pelas apostas no mesmo período.
Mas embora diga não ter participação na gestão da Rio Pag, os relatórios de inteligência financeiras (RIFs) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aos quais a equipe da coluna teve acesso mostram que as contas de Willer Tomaz já receberam R$ 285,6 milhões da Embrasis entre março de 2024 e março de 2026.
A cifra pode contabilizar mais de uma vez o mesmo fluxo de dinheiro, já que a própria Polícia Federal aponta uma intensa fragmentação de transferências entre as empresas ligadas a Willer em que o dinheiro passeia por diversas contas, passando por algumas delas mais de uma vez. Os investigadores trabalham com a hipótese de que essa movimentação vise dificultar a identificação da origem, do destino e do beneficiário econômico final dos valores.
A título de exemplo, só entre março e maio de 2025 a conta de Willer Tomaz no Magnum Bank enviou R$ 24,5 milhões em valores fracionados para as contas da Rio Pag e de outras empresas do advogado. A PF detectou também que foram enviados R$ 1,05 milhão para a Embrasis.
A PF encontrou na nuvem do telefone de Willer provas de que ele tinha acesso à conta da pessoa jurídica da Rio Pag no BTG Pactual através de seu cadastro na pessoa física, o que, para os investigadores, reforça que ele tinha “controle efetivo” sobre a empresa. O celular do advogado foi apreendido em agosto em uma das fases da Operação Sem Desconto, que apura a fraude nos descontos ilegais nas aposentadorias do INSS.
Além disso, na nuvem do advogado há um e-mail encaminhado pelo próprio Willer em dezembro de 2024 ao setor de compliance do Magnum Bank, um banco digital. Nos prints do e-mail incluídos no relatório ao qual a equipe do blog teve acesso, o amigo de Flávio Bolsonaro admite ser ”sócio ou acionista” das empresas relacionadas pela instituição financeira.
Na troca de e-mails, a Rio Pag consta de uma lista de companhias relacionadas pelo compliance do Magnum Bank como parte do protocolo Know Your Customer, ou Conheça seu Cliente, obrigatório para todas as instituições financeiras.
Nela, Willer confirma ser acionista de todas as empresas, incluindo a Alcazar Holding, offshore sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, proprietária de um terço do jato Legacy 650 em que Flávio Bolsonaro viajou em janeiro de 2025 dos Estados Unidos para Brasília. O avião tinha como um dos cotistas o CEO do Banco Master, Daniel Vorcaro, que na época já fazia aportes no filme “Dark Horse” sobre a trajetória política do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Como publicamos na semana passada, informações que constam do mesmo relatório mostram que nessa época a conta da Alcazar no banco Santander tinha o próprio Flávio Bolsonaro como “usuário master”, ou seja, com acesso privilegiado à operação da conta. Ambos negam terem tido conta conjunta e dizem que a informação do relatório da PF é falsa.
Além da Alcazar, também a Cathedral Holding, outra empresa de Willer, aparece no relatório da PF como intermediária do fretamento de aeronaves executivas para o advogado, para Flávio Bolsonaro e familiares em uma viagem para a Riviera Francesa entre abril e maio de 2025.
Em nota encaminhada à equipe do blog na última semana, Willer classificou os deslocamentos como “viagens de lazer com as famílias, que embarcaram como convidadas, sem pagamento ou contrapartida de qualquer natureza”.
“No contexto da investigação, a PIXS/RIOPAG é apontada como empresa pertencente de fato a WILLER TOMAZ, embora seu nome não conste diretamente do quadro societário”, diz trecho do relatório ao qual tivemos acesso em referência ao nome da empresa quando criada, Pixs Cobranças e Serviços em Tecnologia.
Além da vinculação da irmã de Willer, Christine Tomaz, com a Embrasis, que é a única acionista da Capital Pretium S.A., controladora da Rio Pag, outra conexão com o advogado é a empregada doméstica Lídia Mazelli, que segundo a PF já integrou o quadro societário da operadora de pagamentos da Loterj e aparece como diretora em mais de dez empresas ligadas a Willer Tomaz.
O contrato da empresa com a autarquia fluminense se tornou uma das principais dores de cabeça do governo interino de Ricardo Couto, conforme já publicamos na coluna.
A Rio Pag acompanhou a expansão exponencial do setor de apostas no estado antes da regulamentação nacional sob a gestão do então presidente da Loterj, Hazenclever Lopes, que segundo a PF já integrou a banca de advogados de Willer. Mas a empresa se tornou pivô de uma disputa judicial com o governo fluminense após a saída de Cláudio Castro do poder.
No centro do imbróglio estava a cobrança de R$ 18,5 milhões da Loterj que estavam sob custódia da Rio Pag e “sumiram” das contas da empresa. Após cobranças em série, o valor foi pago, mas o governo do estado segue reivindicando na Justiça cerca de R$ 4 milhões referentes a correção monetária, multa e juros de mora que a empresa ligada a Willer Tomaz contesta judicialmente.
A briga levou à ruptura unilateral do contrato pela Loterj no fim de setembro, mas, como antecipamos no blog, a medida foi derrubada por uma liminar da 14ª Vara da Fazenda Pública da Comarca da Capital assinada pela juíza Neusa Regina Larsen de Alvarenga Leite.
Na ocasião, a Rio Pag alegou que houve irregularidades de ordem burocrática no processo que levou à rescisão, o que deveria suspender a medida até que dois pedidos de suspeição apresentados pela companhia contra a cúpula da Loterj fossem reanalisados.
A tese foi acatada pela magistrada, que apontou “possível afronta aos princípios da legalidade, do contraditório, da ampla defesa, da segurança jurídica, e da confiança que regem os processos administrativos”. A Loterj recorreu da decisão, e o impasse persiste desde então.
Na ocasião, integrantes do governo de Ricardo Couto avaliavam que o recurso foi uma manobra para protelar o desfecho do imbróglio jurídico para depois das eleições, na expectativa de que a rescisão fosse revertida em definitivo em um eventual governo do bolsonarista Douglas Ruas (PL), que à época avançava nas pesquisas de intenção de voto sobre o então líder nas projeções Eduardo Paes (PSD).
Ex-secretário de Cláudio Castro e escolhido para a corrida pelo Palácio Guanabara por Flávio Bolsonaro, Ruas acabou eleito no primeiro turno após a anulação dos votos do terceiro colocado, Anthony Garotinho (Republicanos), pela Justiça Eleitoral.
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