
A advogada e influenciadora Deolane Bezerra dos Santos, presa nesta quinta, 21, na Operação Vérnix - força-tarefa da Delegacia-Geral de Polícia Civil e da Procuradoria-Geral de Justiça - lavou um “oceano de dinheiro do PCC”, informaram os investigadores que a espreitavam desde que embarcou para a capital italiana, no dia 26 de abril.
“Ela é beneficiária de uma fortuna repassada por uma transportadora controlada pela facção”, anota o delegado Edmar Rogério Dias Caparroz, da Delegacia Seccional de Polícia de Presidente Venceslau, onde fica situada a Lopes Lemos Transportes Ltda, ao lado da Penitenciária II, onde o esquema foi instalado.
A defesa de Deolane não foi localizada para se manifestar. O espaço está aberto.
Deolane teve seu nome lançado na Difusão Vermelha da Interpol quando os investigadores constataram, nas redes sociais da influenciadora, que ela estava passeando em Roma. Ela iria ser detida no exterior, mas antecipou seu retorno ao Brasil para esta quarta, 20, porque tinha um compromisso agendado na Polícia Federal para renovação de seu passaporte nesta quinta, 21, às 10 horas - ao qual não pôde comparecer porque, às 6 horas, foi capturada em sua residência de Tamboré, na Grande São Paulo.
A Operação Vérnix indica que Deolane controlava 35 empresas de fachada, todas com o mesmo endereço, em um modesto conjunto habitacional no pequeno município de Martinópolis, a 550 quilômetros da capital paulista. Por meio dessa teia de pessoas jurídicas sem nenhuma atividade formal, a influenciadora, que tem 20 milhões de seguidores, teria captado grandes somas repassadas pela transportadora, sob gestão da cúpula do PCC, segundo os investigadores.
Por ordem do juiz Deyvison Heberth dos Reis, da 3.ª Vara do Foro de Presidente Venceslau, foram bloqueados R$ 327 milhões em ativos financeiros e bens imóveis, inclusive carros de luxo de Deolane e de seus aliados, entre eles o número 1 da organização, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola ou “Narigudo”, e seu irmão, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, que mesmo já presos também foram alvos de ordem de prisão na Operação Vérnix.

O procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio oliveira e Costa: 'Descobrimos a pejotização do crime' Foto: WertheWerther Santana/Estadãor Santana/Estadão
“Descobrimos a pejotização do crime organizado”, disse o procurador-geral de Justiça Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, em referência ao grupo de sociedades de papel sem nenhum funcionário efetivo que Deolane mantinha em seu nome. “Alcançamos o andar de cima do crime organizado que ingressou na economia formal, primeiro com postos de combustíveis e empresas de ônibus, e agora com transportadoras”, arremata o chefe do Ministério Público paulista. Os investigadores dizem que a influenciadora “lavou um oceano de dinheiro”.
“Aqui em São Paulo não temos receio do crime organizado”, disse o secretário de Segurança Pública do Estado, Osvaldo Nico Gonçalves.
Especificamente de Deolane, indiciada por organização criminosa e lavagem de dinheiro, o juiz confiscou R$ 27.002.774,72, incluindo na medida restritiva suas pessoas jurídicas (Bezerra Publicidade e Comunicação Ltda., Bezerra Produções Artísticas Ltda. e Deolane Bezerra Holding Participações Ltda).
Outros R$ 9.400.655,21 foram bloqueados de contas atribuídas a Everton de Souza, o “Player”, e a Pizzaria Chatubão Ltda - ele seria o operador financeiro e intermediador entre a cúpula da facção e o “gestor” da transportadora, Ciro Cesar Lemos.
“Orientava a destinação dos valores e indicava contas receptoras. Seu perfil financeiro pessoal revela volume expressivo de créditos com inúmeros depósitos em espécie, fracionados, realizados em diferentes praças, em padrão consistente com a ocultação da origem dos recursos”, diz a polícia.
O delegado-geral da Polícia Civil, Artur Dian, destaca que Éverton mantém “estreitas relações” com Deolane. De um sobrinho de Marcola, Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, o juiz mandou embargar R$ 8.595.618,26.
A polícia crava que Deolane, identificada como beneficiária de valores oriundos da Lopes Lemos Transportes, recebidos em contexto de “acerto” e “fechamento” financeiro - e não como remuneração por serviços advocatícios ou qualquer outra contraprestação lícita identificável -, “apresenta o perfil característico de integrante do núcleo financeiro da organização com elevada capacidade de movimentação econômica e projeção pública”.

Mansão de Deolane Bezerra na cidade de Barueri, na Grande SP - Foto: Reprodução/TV Globo
Relatórios de Inteligência Financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e o afastamento do sigilo da influencer “confirmam movimentações vultosas, incompatíveis com os rendimentos declarados”.
“O conjunto de suas pessoas jurídicas, entre elas a Bezerra Publicidade e Comunicação Ltda., Bezerra Produções Artísticas Ltda., Deolane Bezerra Holding Participações Ltda. e DB Santos Apoio Administrativo e Financeiro Ltda, exibe características estruturais de veículos de lavagem”, destaca o inquérito da Operação Vérnix. A Polícia cita endereços fictícios em imóveis residenciais singelos em municípios do interior paulista (Santo Anastácio e Martinópolis), sem qualquer indicativo de atividade operacional verificada em campo, compartilhando os mesmos endereços com dezenas de outras empresas e o mesmo contador, vinculado também às pessoas jurídicas de Everton “Player”.
“A ostentação pública e reiterada de padrão de vida elevado, documentada em redes sociais ao longo de anos - viagens internacionais, veículos de luxo (Lamborghini Huracán, McLaren), aeronaves -, segundo relatório da Polícia Civil, é frontalmente incompatível com as informações fiscais conhecidas e contribui para a conclusão investigativa de que seu patrimônio é, ao menos em parte, produto ou proveito da lavagem de capitais praticada em benefício da organização”, ressalta o juiz.
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