
Lançada no final de abril, a federação formada pelos partidos Progressistas (PP) e União Brasil deu novo formato ao centro político. Ao juntar forças, as duas legendas ganham peso eleitoral, engordam o caixa com mais recursos dos fundos públicos, aumentam o tempo de propaganda no rádio e na TV e tentam ampliar a influência no quadro partidário do país. Os efeitos dessa nova configuração somente poderão ser conhecidos nas eleições de 2026, mas pode-se antecipar que o casamento das duas siglas representa a criação de um núcleo mais potente nesse campo político para as disputas nas urnas.
Majoritariamente oposicionista, a federação, batizada de União Progressista, nasceu com 107 deputados, 14 senadores e 5 governadores. Com esses números, tem a maior bancada na Câmara, empata em número de senadores com o PL e o PSD, e ainda conta com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
A formação da União Progressista segue uma tendência dos partidos brasileiros. A possibilidade de criação de federações foi aprovada pelo Congresso e regulamentada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 2021. Com o acordo dos dois partidos, o Brasil passa a ter quatro federações partidárias formalizadas: PSDB-Cidadania, PSOL-Rede, PT-PCdoB-PV e, agora, União Brasil-PP.
O cientista político Sérgio Praça, doutor pela USP, explica que o novo formato é um reflexo das reformas eleitorais implementadas nos últimos 15 anos, que buscaram reduzir a fragmentação do sistema partidário brasileiro. “Pequenos partidos não são bons no sentido de que, quanto mais houver, maior a fragmentação no Congresso. Isso não é, em si, ruim para a democracia, mas pode ter um efeito negativo: partidos pequenos sem representação real de interesses sociais”, afirma.
Diferentemente da coligação, tipo de aliança que já existia, desfeita depois das eleições, as federações exigem compromisso de longo prazo entre os partidos, funcionando como se fossem uma única legenda por, no mínimo, quatro anos. Até o final de 2025, a nova federação terá no comando o senador Ciro Nogueira (PP-PI), e Antonio Rueda, que são, respectivamente, presidentes, do PP do União Brasil.
Praça também chama atenção para o potencial de impacto da União Progressista nas eleições presidenciais de 2026. “O cenário está bastante aberto, e é estratégico unir forças para apoiar um candidato competitivo”, analisa. Embora tanto o PP quanto o União Brasil façam parte do governo Lula, ele acredita que um afastamento é provável nos próximos meses. “A ideologia desses dois partidos já os distancia do presidente. Em ano eleitoral, a tendência é que deixem os ministérios e se aproximem de outra candidatura, dependendo da popularidade de Lula”, afirma.
Hoje, a federação está representada no governo por três ministros: André Fufuca (Esporte), do PP; e Celso Sabino (Turismo) e Frederico de Siqueira Filho (Comunicações), ambos do União Brasil. Já Waldez Góes (Integração e Desenvolvimento Regional), embora filiado ao PDT, foi indicado por Alcolumbre.
A União Progressista é composta, basicamente, por políticos ligados ao Centrão, nome do bloco informal de parlamentares sem alinhamento ideológico rígido, conhecido pela habilidade de negociação com diferentes governos desde a redemocratização. “Centrão é um nome que não diz muito sobre posição ideológica. Diz mais sobre com quem o partido está disposto a negociar”, observa Otávio Catelano, pesquisador e doutorando em Ciência Política da Unicamp.
Por esse motivo, Catelano avalia que a federação dificilmente lançará um nome próprio competitivo na polarização entre Lula e Bolsonaro. “O mais provável é que o grupo fortaleça sua capacidade de negociação com qualquer um dos lados, em vez de se apresentar como terceira via viável.”
Catelano destaca ainda a raiz histórica comum dos dois partidos que integram a federação. “O PP, que já mudou de nome várias vezes, foi fundado como Partido Democrático Social (PDS), herdeiro da Arena — base de sustentação da ditadura militar”, lembra. Já o União Brasil nasceu da fusão entre o PSL — legenda pela qual Jair Bolsonaro se elegeu em 2018 — e o DEM, ex-PFL, que por sua vez também se originou a partir de dissidentes do antigo PDS.
“A questão é entender que, no fundo, toda essa origem partidária é a mesma: a Arena. Por mais que o nome atual seja União Progressista, estamos falando de um bloco com raízes fortemente conservadoras”, conclui.
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