
Um racha sobre postura a ser adotada na relação com o governo federal levará a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional a uma inédita eleição para definir seu próximo líder. A votação está marcada para esta terça-feira quebrando a tradição de definir o presidente da bancada por acordo.
A principal disputa ocorre entre os deputados Otoni de Paula (MDB-RJ) e Gilberto Nascimento (PSD-SP), ambos da Assembleia de Deus de Madureira, mas com visões distintas sobre o relacionamento com o Palácio do Planalto. Enquanto Otoni tem se aproximado do governo Lula, Nascimento conta com o apoio da ala ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Embora rejeitem os rótulos de governista e bolsonarista, aliados afirmam que a eleição de um ou de outro pode determinar a aproximação ou a manutenção do distanciamento da bancada em relação à gestão petista.
Uma terceira candidata, a deputada Greyce Elias (Avante-MG), da Sara Nossa Terra, se apresenta como alternativa à polarização. A aposta na bancada é que ela vai retirar seu nome da disputa e apoiar Nascimento, o que a deputada nega.
— Tenho admiração pelo trabalho do Gilberto e por sua trajetória na vida pública, mas não conversamos sobre isso — afirmou Greyce Elias.
Em uma espécie de terceiro turno entre Lula e Bolsonaro, Otoni de Paula e Gilberto Nascimento mobilizam seus apoiadores para comparecer à votação, marcada para às 16h30. A expectativa é que 70 parlamentares compareçam para votar. A bancada tem 245 signatários, mas 117 são considerados “engajados”, pertencendo a alguma igreja, de acordo com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).
Tradicionalmente, a Frente Parlamentar Evangélica escolhe seus líderes por consenso. Em 2023, a falta de acordo levou Otoni a retirar sua candidatura, resultando em uma presidência compartilhada entre Eli Borges (PL-TO) e Silas Câmara (Republicanos-AM). Esse histórico explica o apoio dos atuais dirigentes a Otoni, embora ele enfrente resistência da ala bolsonarista, que cogita deixar a bancada caso ele vença, temendo um alinhamento com o governo federal.
Desde o ano passado, Otoni, que era alinhado a Bolsonaro, tem feito acenos ao governo Lula. Em outubro de 2024, o deputado compareceu à cerimônia de sanção do Dia Nacional da Música Gospel, no Palácio do Planalto, e fez elogios a Lula. O deputado também apoiou a reeleição de Eduardo Paes (PSD), que foi o candidato de Lula para a prefeitura do Rio do ano passado.
Além disso, Otoni tem um aliado na superintendência do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) no Rio. José de Moraes Correia Neto também é ligado a Silas Câmara.
Ao GLOBO, Otoni criticou o que chamou de “factoides” e tentativas de desmerecimento por parte de aliados de Nascimento. Apesar de afirmar que mantém boa relação com o adversário, classificou seu entorno como “pesado”.
— É só ir à minha rede social para ver o governista estranho que eu sou. Estamos vivendo um extremismo tão grande que qualquer aproximação e diálogo são vistos como algo absurdo — afirmou Otoni, que classificou sua postura como “pragmática”.
Nascimento, por outro lado, rechaça ser rotulado como bolsonarista:
— Nem bolsonarista, nem lulista, sou um homem do diálogo, acho que é preciso equilíbrio. A Frente tem um lado espiritual e bandeiras definidas. Nossos partidos vão do PSOL ao PL, então é necessário diálogo e pacificação.
Apesar de elogiar os dois adversários, Nascimento ressalta sua experiência como um de seus principais atributos, o que o cacifaria para o posto. Ele se referiu a Otoni como um “bom menino” e recordou seu primeiro encontro com o deputado na casa do avô dele em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
Seus aliados também destacam seu papel como um dos precursores da Frente Parlamentar Evangélica, criada em 2003. Delegado da Polícia Civil e em seu quarto mandato na Câmara, ele conta com o apoio do pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e do líder do PL, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ).
Malafaia se diz distante dos conflitos do Congresso, mas se opõe a Otoni, a quem chama de “vira-casaca”, por ter sido um apoiador de Bolsonaro no passado, tendo inclusive ocupado a vice-liderança do antigo governo.
— Não respeita um deputado mais velho, que nunca foi candidato antes. Fica claro que tem um jogo do governo por trás, e o rapaz (Otoni) quer se aproveitar. Deveria desistir e esperar a hora dele — afirmou Malafaia.
Deputados e senadores inscritos na Frente não são obrigados a votar. O processo de votação será em urna eletrônica e secreto. Após o resultado, o vencedor vai celebrar, amanhã, o tradicional culto semestral da Santa Ceia.
A bancada evangélica escolhe um novo presidente a cada dois anos, em geral na primeira semana de fevereiro. Houve uma tentativa de antecipação, mas o racha impediu a definição do novo líder no final do ano passado.

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