Política CONTAS BLOQUEADAS
Dino afirma que Valdemar desviou R$ 119 milhões do orçamento secreto e bloqueia bens do dirigente
Presidente do PL teria indicado irregularmente 21 emendas parlamentares com a ajuda de ‘Tuca’, ex-assessora do deputado Arthur Lira (PP-AL), segundo a Polícia Federal.
12/07/2026 20h26
Por: Humberto Vital Fonte: ESTADÃO CONTEÚDO
Valdemar Costa Neto | Foto: Fábio Vieira/Estadão

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou o bloqueio de até R$ 119 milhões de bens do presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, por suspeitas de que ele tenha desviado a destinação de 21 emendas parlamentares mesmo sem exercer mandato eletivo. Segundo a investigação da Polícia Federal, o dirigente teria utilizado servidores da Câmara dos Deputados para direcionar a ele mesmo recursos herdados do orçamento secreto - caso revelado pelo Estadão em maio de 2021.

Os advogados de Valdemar, Marcelo Bessa e Thiago Fleury, afirmaram que a decisão de Dino se baseia em “premissas frágeis, inferências subjetivas e de uma indevida criminalização da atividade político-partidária”, e que é “natural e legítima” a atuação do presidente do PL junto à bancada do partido. Já o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato da sigla à Presidência, apontou atuação seletiva da PF (veja as duas manifestações abaixo).

Na decisão, Dino chamou a atenção sobre o prejuízo aos cofres públicos, em razão de não haver legitimidade de Valdemar para indicar emendas.

“Não restam dúvidas de que as ações ora investigadas causaram prejuízo ao erário, no ponto em que emendas representativas de mais de R$ 119 milhões foram forjadamente encaminhadas e desviadas. O fato de que um terceiro não atuante no parlamento brasileiro tinha o poder e a ingerência sobre o direcionamento do orçamento público é gravíssimo e materializa o que de mais nefasto há em termos de desvios envolvendo o tema do orçamento secreto”, anotou o ministro na decisão de 34 páginas.

“Se tomarmos o mais condescendente dos quadros, e considerarmos os desvios ‘apenas’ das emendas já pagas, temos uma consolidação de um desvio de R$ 104 milhões”, diz trecho do relatório da PF enviado a Dino. Os investigadores suspeitam que o presidente do PL - condenado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no Mensalão - foi “beneficiário” direto dos R$ 104 milhões desviados.

A investigação da Polícia Federal na Operação Transparência, deflagrada em dezembro de 2025, aponta que Valdemar “contava com autonomia para direcionar recursos de emendas conforme sua cota pessoal e particular, atribuída a partir de sua condição de presidente da sigla”.

O direcionamento das emendas, segundo a PF, era operado por Mariângela Fialek, conhecida como “Tuca”, ex-assessora do deputado federal e ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL). Ela trabalhou no gabinete de Lira entre março de 2021 e o início de 2025, quando passou a atuar na liderança do Progressistas (PP) na Casa, partido do ex-presidente da Câmara.

Principal alvo da Operação Transparência, Mariângela Fialek teve seu aparelho celular analisado pela Polícia Federal, que constatou um “arranjo decisório paralelo” para a destinação de verbas públicas, no qual Valdemar aparece como responsável pela definição e pelo remanejamento de emendas.

“No caso analisado, um não parlamentar, ex-deputado cassado, presidente de uma importante sigla do Congresso, dispõe dos serviços de Fialek e de outros servidores da Câmara dos Deputados para destinar recursos conforme seus interesses, em sintomas inequívocos do cometimento dos crimes de peculato”, escreveu Dino.

PF fez busca e apreensão em gabinete da Câmara dos Deputados usada por Mariangela Fialek, assessora de Arthur Lira que cuidava de emendas parlamentares Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO