As apostas em eventos esportivos têm uma longuíssima história, que se confunde com a própria história dos esportes. Mas existe uma recente invasão de casas de apostas que, para nós, aparece principalmente no futebol. Hoje é quase impossível assistir a um jogo sem ser bombardeado pelas chamadas bets. Elas estão nas camisas dos clubes, nas placas de publicidade, nos comerciais de TV e YouTube e até dando nome a competições. Por incrível que pareça, há poucos anos isto não existia.
Mas de onde vieram as casas de apostas e como chegamos a esse ponto? E o que está sendo feito para controlar essa influência no esporte mais popular do mundo? Vou condensar aqui algo do que se sabe.
Tudo começou muito antes da internet e dos smartphones. Apostas em eventos esportivos ocorriam há milênios, mas de maneira informal.
Em 1795, Harry Ogden entrou para a história ao abrir a primeira casa de apostas estruturada, gerenciando cotações no hipódromo de Newmarket Heath. Ogden foi pioneiro ao estabelecer probabilidades antes da corrida, aceitar o dinheiro antecipadamente e pagar em espécie quem acertasse o cavalo vencedor. Isto gerou as bases de funcionamento do agenciador de apostas moderno.
Outro passo fundamental foi uma lei aprovada na Inglaterra em 1961, o Betting and Gaming Act, que regulamentou e conferiu legalidade aos agentes que organizavam apostas e permitiu que eles abrissem “betting shops”. Só no primeiro ano, 10 mil pontos de venda foram abertos.
Enquanto isso, no Brasil, os apostadores ficavam limitados ao mercado clandestino ou à estatal Loteria Esportiva.
A segunda onda veio com as casas de apostas online – com um grande diferencial: o apostador não precisava mais se deslocar fisicamente e preencher um papel num guichê - podia apostar de qualquer lugar (e as próprias casas de apostas podiam estar em qualquer lugar - de modo geral, em paraísos fiscais com pouca regulação).
A Intertops (atual Everygame) foi a primeira a aceitar uma aposta esportiva online no ano de 1996. A consolidação tecnológica veio nos anos 2000, com o surgimento de inovações massivas provenientes de empresas de DNA britânico. A Betfair (fundada em 2000) revolucionou a indústria ao criar o conceito de “Bolsa de Valores Esportiva”.
Em vez de apostar contra a margem da casa, o usuário passou a apostar contra outros usuários (P2P), popularizando o trade esportivo. A Bet365 foi pioneira na expansão maciça de mercados ao vivo (in-play). A já mencionada Intertops foi a primeira a processar uma aposta utilizando um dispositivo móvel, através da primitiva tecnologia WAP, antecipando a revolução dos smartphones que viria anos depois.
Corta para o Brasil de 2018. A Lei 13.756/18 legalizou as apostas esportivas de cota fixa no Brasil, mas, como de praxe, a regulamentação ficou pendente. Foi o cenário perfeito para uma expansão desenfreada. Sem regras claras de tributação, operação ou publicidade, centenas de empresas sediadas no exterior passaram a operar no país livremente.
Clubes de futebol, tradicionalmente afogados em dívidas milionárias, viram nas casas de aposta uma tábua de salvação. Para se ter uma ideia, em 2023, dos 40 clubes das séries A e B do Campeonato Brasileiro, 39 tinham patrocínios de empresas de apostas. Hoje, contratos que superam facilmente dezenas de milhões de reais anuais por um espaço master na camisa são a regra, e não mais a exceção.
Mas há uma questão muito grave por trás desta injeção de dinheiro: o risco à integridade do esporte. Como garantir que os resultados não estão sendo manipulados quando há um volume astronômico de dinheiro em jogo em eventos que dependem de ações simples, como forçar um cartão amarelo, cometer um pênalti ou ceder um escanteio?
Denúncias graves abalaram o futebol europeu, como a do meia brasileiro Lucas Paquetá, investigado formalmente na Inglaterra por supostamente forçar cartões amarelos. No entanto, ele foi absolvido das acusações no ano passado. No Brasil, a Operação Penalidade Máxima, conduzida pelo Ministério Público de Goiás, descobriu que jogadores estavam sendo aliciados por quadrilhas para forçar eventos específicos durante os jogos em troca de propinas, fraudando o mercado de apostas. Fica evidente que a expansão vertiginosa das apostas trouxe consigo um incentivo perigoso para a corrupção esportiva.
Diante desse quadro preocupante, o que os organizadores e os governos estão fazendo para coibir essa influência? A situação varia de acordo com o país:
No Brasil, a Lei das Apostas Esportivas, aprovada em dezembro de 2023, obriga as bets a pagar uma outorga para operar legalmente, ter sede constituída no Brasil e a seguir regras estritas de publicidade e jogo responsável (mas ainda não são regras tão duras quanto as europeias – tanto que suas marcas estampam a frente da maioria das camisetas dos clubes).
O desafio atual de governos e federações é achar o equilíbrio entre a tentação gerada pela enorme arrecadação nominal que as casas de apostas geram com a manutenção de competições limpas e – por último, mas não menos importante – sem fomentar o vício da jogatina na população.
Adendo: existe um filme primoroso correlato a este tema – o italiano “L’arbitro”, de 2013, dirigido por Paolo Zucca. Infelizmente não consegui encontrar disponível para streaming no Brasil, mas caso alguém consiga encontrar em algum sebo de DVDs ou assistir via VPN, recomendo fortemente.