Trump já havia feito em 22 de março um ultimato de 48 horas a Teerã, que foi adiado por cinco dias. Chegados os cincos dias, o recuo foi prorrogado por mais 10. No último fim de semana, ele refez a ameaça depois que o Irã abateu dois caças americanos e quase localizou um de seus pilotos.
O americano então ameaçou atacar todas as infraestruturas de energia do Irã nesta terça se o Estreito de Ormuz - por onde passa um quarto do petróleo do mundo - não fosse reaberto para navegação. Israel também ameaçou bombardear pontes e ferrovias, o que de fato foi feito ao longo do dia.
Antes, o americano havia dito que ia reabrir o estreito por meio da força. Também pressionou seus aliados europeus a enviarem suas marinhas para a passagem, mas não teve seu chamado atendido.
Conforme países do Golfo relatavam aumento dos ataques por parte do Irã em seus territórios na tarde desta terça, o Paquistão propôs a Trump uma trégua de duas semanas em troca da reabertura do Estreito. Ambos os lados concordaram.
Segundo três autoridades iranianas, o Irã aceitou a proposta após intensos esforços diplomáticos paquistaneses e uma intervenção de última hora da China, um aliado fundamental. O Conselho de Segurança Nacional do Irã confirmou oficialmente o acordo, classificando-o como uma vitória na qual os Estados Unidos aceitaram os termos iranianos.
O Irã está muito enfraquecido fisicamente e estava numa situação muito frágil até mesmo antes dessa guerra. Muito enfraquecido em termos de destruição da sua infraestrutura. Mas sai numa posição geopolítica muito maior do que a que entrou nessa guerra.
Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais do Berea College do Kentucky
“De fato o Irã está sendo muito mais bem-sucedido do que era esperado, porque ele claramente tem uma assimetria de poder em relação aos Estados Unidos”, avalia Vinicius Vieira. “Eles decidiram aumentar o custo imposto aos Estados Unidos, por meio de bombardeios a aliados americanos no Golfo.”
A consequência, defende o professor, vai além do governo Trump. “Essa falta de credibilidade não deve se estender apenas ao governo Trump, mas pode virar uma herança maldita para os seus sucessores, sejam eles democratas ou republicanos”.
Chamou atenção a revelação de que a China participou da intervenção de hoje. Até então, Pequim se mantinha distante - ao menos em público - da escalada do conflito.
“[O acordo] foi um um iniciativa de diversos outros países. Paquistão, europeus, China, de tentar uma resolução diplomática porque eles entendem que a abertura do Estreito de Ormuz agora só dá para ser feita pela via diplomática e não pela via militar”, afirma Poggio. “O próprio Trump entendeu isso também, só que o Trump é alguém que não tem paciência e habilidade para lidar com diplomacia”.
Para ambos os professores, o que sim houve de diferente e mais grave no ultimato encerrado hoje foi a escalada retórica de Trump ao prometer matar “toda uma civilização”, um termo que o Irã denunciou na ONU como ameaça de genocídio.
“Trump pode ter aberto com essas falas um precedente bastante perigoso quando o assunto é essa desumanização do adversário”, afirma Vieira. “Ele chegou a chamar os iranianos de animais. Se o seu adversário não é humano, então você pode fazer qualquer coisa com ele”.
Poggio separa a retórica de Trump em três categorias: a primeira quando ele utiliza palavrões e ataca jornalistas diretamente, quebrando normas sociais; a segunda quando ele ameaças regras e a Constituição, corroendo normas democráticas; por último, a declaração desta terça, muito mais grave.
“Entramos no estágio de um crime de guerra e genocídio, o que ultrapassa qualquer barreira, razão pela qual há uma reação muito grande por parte de muita gente nos Estados Unidos”, afirma o professor.